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Desafios invisíveis da mulher advogada

Data: 02/03/2026 14:17

Autor: Juliana Zafino Isidoro Ferreira Mendes*

imgPor muito tempo, falar sobre os desafios da mulher advogada foi tratado como pauta acessória, quase um desvio do debate jurídico “principal”. Hoje, a realidade impõe outro olhar: não se trata de fragilidade, mas de estruturas que, silenciosamente, impactam trajetórias, carreiras e permanência na advocacia. Um tema que não deve ser debatido apenas em março, mas refletido. Não apenas pelas mulheres, também pelos homens, advogados, gerados por mulheres.
 
Os desafios enfrentados pelas mulheres na profissão raramente aparecem nos processos, nas estatísticas frias ou nos discursos formais. São desafios invisíveis, cotidianos e acumulativos. Estão nas interrupções constantes em reuniões, na necessidade de provar competência repetidas vezes, no questionamento velado da autoridade, na conciliação exaustiva entre vida profissional, maternidade e responsabilidades domésticas que ainda recaem, majoritariamente, sobre as mulheres.
 
Há também a violência simbólica - aquela que não deixa marcas aparentes, mas desgasta. Comentários desqualificadores, piadas normalizadas, exclusões sutis de espaços de decisão, convites que não chegam. Tudo isso vai minando a confiança, gerando adoecimento emocional e, em muitos casos, levando mulheres a abandonarem ou reduzirem sua atuação na advocacia.
 
Outro desafio pouco debatido é a solidão profissional. Muitas mulheres advogadas, especialmente as que atuam de forma autônoma ou em ambientes predominantemente masculinos, enfrentam jornadas sem rede de apoio, sem espaços seguros de escuta e sem reconhecimento institucional. A cobrança por resiliência constante transforma o cansaço em silêncio e o silêncio em invisibilidade.
 
Recentemente, a Ministra Carmem Lúcia, do STF trouxe uma reflexão muito verdadeira. Ela disse: “Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente, é muito mais fácil". Reconhecer esses desafios não significa vitimização. Pelo contrário: é um passo necessário para amadurecimento institucional. Ouvir a mulher advogada é uma estratégia de fortalecimento da própria advocacia. Instituições que escutam conseguem prevenir conflitos, reduzir adoecimentos, promover ambientes mais justos e reter talentos. 
 
O mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, não deve ser apenas um marco simbólico. É uma oportunidade concreta de ampliar o debate, legitimar vivências e construir políticas que não se limitem à reação, mas avancem na prevenção e no cuidado.
 
A mulher advogada não busca privilégios. Busca equidade, respeito e condições reais de exercer a profissão com dignidade. Tornar visíveis os desafios invisíveis é reconhecer que a advocacia só se fortalece quando todas e todos conseguem permanecer, crescer e ocupar seus espaços com legitimidade.
 
Ouvir é o primeiro passo. Fortalecer é a consequência. E transformar é uma responsabilidade coletiva.
 
Juliana Zafino Isidoro Ferreira Mendes é advogada e Ouvidora da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Mato Grosso (OAB-MT) *
 
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